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O conto é a forma narrativa, em prosa, de menor extensão. Entre suas principais características, estão a concisão, a precisão, a densidade, a unidade de efeito. O conto precisa causar um efeito singular no leitor; muita excitação e emotividade. Confira abaixo um conto chamado ‘Mulher de quatro seios’, do nosso redator Wagner Mafuzo. Excelente, rico em detalhes, expressivo e instigante; com a garantia de boas risadas no final.
Mulher de quatro seios
I
Roberto acabava de sair de uma reunião com os presidentes da empresa e, prestes a entrar no estacionamento onde deixara o carro, ouviu o porteiro-segurança-garoto-propaganda berrar da calçada em frente ao puteiro: “venham conhecer a incrível mulher de quatro seios”. E não resistiu.
Passou pela pesada porta revestida de couro negro e botões dourados e foi saraivado pelas luzes multicoloridas que vinham refletidas dos pedaços de vidro colados nas paredes. No palco, uma mulher dançava sensualmente, vestida apenas com um boné do MST e tinha um regular par de seios: não era a atração principal.
Apoiou-se no balcão e pediu uma dose de uísque. De repente, o encontrão lhe tirou o fôlego. O susto foi ainda maior ao ver que o desastrado era seu chefe.
- Que bom te ver, Roberto!
- Também é bom…
- Preciso que você vá até o meu carro!
- Carro?
- É, sabe, veículo motorizado? Risada. Esqueci os malditos charutos no banco traseiro. E não demore.
Cabisbaixo, ele atravessou a multidão, desviou olhares que sequer o notavam e encontrou uma noite esquisita lá fora. O carro não estava longe. Guardou os charutos no bolso do blazer e, pela janela, viu uma agitação de braços, vozerio, assobios. “O show” – disse. Alcançou a janela seguinte, viu uma pontinha de braço; esticou-se, uma pontinha de seio; e os outros três? Eu preciso ver os outros três! Correu até a entrada, mas o aglomerado de gente havia se formado. Empurrou, cutucou, acotovelou. Finalmente, quando ia passar pela porta, o porteiro-segurança-garoto-propaganda berrou:
- 20 reais.
- Eu saí para pegar charutos no carro do meu…
- 20 reais.
- Eu… Eu quero falar com o gerente.
- Risada. Gerente? O gerente sou eu quando fico bêbado!
Deu-lhe o dinheiro e entrou, levando um tapa na cara do ar quente e azedo que vinha de contra ele. Olhou imediatamente para o palco, mas as luzes já estavam apagadas…
Outro encontrão. Novamente o chefe.
- Então, pegou os charutos? Por que não esperou a apresentação? Risada. Perdeu os mais lindos, digo, maravilhosos, quatro seios que já vi em toda a minha vida. Maravilhosos!
- Preciso ir ao banheiro…
- Cadê os charutos?
- Preciso ir…
- Ela fez malabarismo com facões árabes, Roberto. Sabe o que isso significa? Peitos balançando, os quatro balançando. Risada. Na firma ou na vida, você sempre perde as melhores oportunidades. Risada.
- Preciso ir ao banheiro…
Saiu atordoado, sem entregar os charutos. No banheiro, encarando-se no espelho, virava o rosto lentamente de um lado a outro. Parecia ver o sangue desaparecer e a palidez se aproximar como uma onda tranqüila. Mas nada havia de tranqüilo. Pegou o celular e ligou para a esposa.
- Eu vou matá-lo! Juro que eu vou matá-lo!
- Meu Deus! Do você está falando? Como descobriu…?
Desligou o telefone. Passou pelo chefe e, olhando fixamente para a porta, entre os dentes, disse “vou buscar os malditos charutos”.
Sentou-se no banco do motorista, ajustou o espelho e o banco, colocou o cinto de segurança, ligou o carro e, calmamente, saiu do estacionamento. Duas quadras do puteiro, invadiu a calçada e atingiu o muro de uma casa abandonada. Com a batida, um revólver pulou de dentro do porta-luvas. Inclinando-se para frente, através do pára-brisa, dirigiu ao céu um olhar de gentil agradecimento. Andando rente aos muros, pensou “agora sim o desgraçado leva fumo” e sorriu.
A poucos passos, o celular tocou.
- Você ainda está no puteiro? Estamos a caminho daí…
- Quem está falando?
- Rafael. A tua mulher me ligou…
- Ligou? Por quê? Como sabe que estou num…?
- Eu vi você entrando aí depois da reunião. Por favor, ouça…Ela me disse que você sabe…
- Sei o que?
- Ela disse que você quer me matar!
- Quero te matar?
- Foi apenas uma vez, eu juro. Quando planejamos aquela festa surpresa no ano passado. Ela disse que estava carente, eu tinha bebido um pouco…
- Mas que porra é essa? Seu…seu…. Agora eu vou matar os três.
- Que três?
II
- A casa já está vazia.
- Não faz mal, só quero acertar uma conta…
- São 20 reais, chefia.
- Dessa vez eu vou ter um desconto!
- Ninguém tem descon…
O revólver reluziu em sua mão direita, estranhamente firme, decidida. Pressionou-o contra a barriga do porteiro e disse “entra, desgraçado”. Lá dentro, em meio aos berros, levou os funcionários, garotas e bêbados para o banheiro.
- Que loucura é essa? – perguntou o chefe, pálido.
- Cala a boca! Você fica pra fora.
Sorriu para o porteiro e disse:
- Você vai me pagar 40 reais para entrar nesse banheiro, chefia.
- Eu não tenho…
- Me dá a tua carteira, filho da mãe!
Pegou o chefe pelo braço e ambos sentaram-se no balcão.
- Abra a boca.
- O que?
- Abra a boca.
Acomodou o revólver dentro da boca do chefe, mas, quando ia apertar o gatilho, o amigo e a esposa entraram, desesperados.
- Meu Deus! O que você está fazendo? – berrou a mulher.
- Isso está ficando cada vez melhor!
- Larga isso, Roberto – disse o amigo.
- Quem é você para me dizer…?
- Por favor!
Tirou o 38 da boca do chefe.
- Sabe o que você vai fazer agora, querido chefe? Vai preparar um Manhattan e depois uma caipirinha! Ou melhor, vai fazer tudo que tem no cardápio. Já!
Virou-se.
- Você, vagabunda, suba no palco…
A esposa ficou congelada. Ele disparou contra a porta e berrou “vamos, porra!”; as veias do pescoço tinham a espessura de um dedão. O chefe preparava a bebida, ela subiu no palco, tremendo.
- Agora vai tirando as roupas. E devagar, com sensualidade. Não é uma vagabunda que você é?
Ela começou a chorar. O amigo interveio, mas ninguém entendeu o que ele disse.
- Você é profissional. Enxugue as lágrimas! Está se sentindo em casa, amor?
- Roberto…
- Tirando, tirando. Você, amigão do peito, vai colocar todo o teu dinheiro na calcinha dela. E quando as notas acabarem, vai preencher cheques. Risada.
- Cadê a minha bebida, porra?
Enquanto todos desempenhavam os seus papéis, a porta da escada lateral que dava para o segundo andar começou abrir. Roberto apontou o revólver e mandou todos ficarem em silêncio. Uma mulher surgiu com um vestido azul que delineava um quadril experiente e deixava ver metade de cada um dos quatro seios. Seus lábios nunca expressariam mais do que os grandes olhos negros e úmidos, cujos cílios postiços piscavam vagarosamente.
- Não se mexa!
Sussurrando, Roberto disse para o amigo juntar o dinheiro que havia colocado na calcinha da esposa, enfiou tudo na carteira do porteiro e depositou-a delicadamente nas mãos da prostituta. Trancou os três no banheiro e ambos subiram para o quarto.
Ao despi-la, sentou-se na cama e observou a luz da lua cobrindo a pele morena e arrepiada; notou em seus olhos um ardor impetuoso, o desejo felino de seduzir, o qual prenunciava uma luta irresistível; levantou-se, beijou a boca carnuda e deslizou sobre os seios; as argolas que enfeitavam os braços delgados tilintavam, e esse som metálico embalou-os uma, duas, três vezes. Ela sempre em silêncio, ele, como um animal ofegante.
Saiu da cama e pegou um dos charutos do bolso do blazer. Voltou, acendeu-o; os círculos de fumaça iam se alargando até se romperem.
- Como é o teu nome?
Silêncio.
- Não precisa me dizer. Você deve estar assustada. Mas não vou te machucar. A verdade…
O charuto se apagou. Esticou-se para pegar os fósforos e, quando voltou, ouviu pela última vez o tilintar das argolas: ela o degolou com um dos facões árabes que tirou debaixo do colchão…
III
- Roberto… Roberto! Você está dormindo na reunião? Desse jeito a apresentação do projeto vai ser um fiasco, porra. Você quer participar disso ou não? Vai acabar perdendo outra oportunidade. Vamos fazer uma pausa. Vá até o meu carro e traga os meus charutos…
Na Getz, trabalho também é prazer.
Quem está aqui sabe a força de um bom improviso e tem que estar sempre pronto para uma Jam Session.
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